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Entenda o Petróleo

16 de março de 2011 Deixe um comentário

Por Mauro Kahn

Pode-se dizer que a História do Petróleo teve início no ano de 1859, quando o Coronel Drake perfurou 21 metros e encontrou o “ouro negro” no Estado da Pensilvânia. Pouco tempo levou até que surgisse aquele considerado até hoje o homem mais rico de todos os tempos, John Davison Rockefeller. O magnata cunhou uma famosa frase, ao dizer que o melhor negócio do mundo era uma empresa de petróleo bem administrada, e o segundo melhor uma empresa de petróleo mal administrada.

Rockefeller fundou a empresa Standard Oil, transformando-se logo no primeiro bilionário do Mundo. Com tanto sucesso e poder concentrado nas mãos de uma única corporação, economistas e políticos de todos os cantos do planeta temiam que a Standard Oil promovesse um desequilíbrio de mercado desastroso, o que culminou no fracionamento da empresa. Este foi o início do processo que fez surgir as Sete Irmãs do Petróleo, vistas como o mais forte oligopólio de todos os tempos.

Embora tenha havido duas grandes fusões no início deste século (Chevron-Texaco e Exxon-Mobile), a maior parte das empresas advindas destas sete irmãs integram hoje o grupo das chamadas IOCs (International Oil Companies). As sete irmãs ganharam muito dinheiro com a exploração das terras norte-americanas, local de maior produção e exportação do Mundo durante bastante tempo, e, posteriormente, com o petróleo russo de Baku, do México, da Venezuela e finalmente dos produtores árabes.

Tudo mudou quando o papel do petróleo na vida das pessoas, que no inicio da era Rockfeller era somente produzir querosene iluminante, sofreu uma grande transformação. O precioso recurso passou a ser utilizado para movimentar os carros de Henry Ford, os navios ingleses, e os aviões alemães. Após a segunda grande guerra, a demanda por petróleo era infinitamente maior do que no início do século XX, e a partir daí nunca mais parou de crescer.

Já no século XXI, além do notório problema da frota mundial de veículos que alcançava a casa do primeiro bilhão de automóveis, desenvolveu-se sem freios a sociedade consumista e globalizada, na qual cada indivíduo almeja muitos bens materiais, a qualquer tempo, e em qualquer lugar. Como conseqüência deste novo comportamento social surgiram novas demandas por um massivo sistema de transporte de mercadorias e insumos, que acabam sempre viajando milhares e milhares de quilômetros até o seu consumidor final, e uma gigantesca indústria petroquímica, um processo de transição que obviamente exige cada vez mais petróleo. Este contexto evolutivo e perverso, que obviamente demanda mais e mais energia pode ser muito bem simbolizado pelo vertiginoso crescimento da China.

Quanto à forma como esse petróleo foi explorado ao longo dos anos, vale dizer que nos anos cinqüenta do século anterior as relações entre as Sete Irmãs do Petróleo e os países produtores começaram a azedar por uma questão meramente financeira. As nações que detinham grandes reservas, exploradas pelas petrolíferas, não mais se contentavam com as participações que lhes eram repassadas em proveniência da venda de seus recursos minerais. Este foi o gatilho para o início do fenômeno de criação das empresas petrolíferas nacionais, a exemplo do Brasil, que criou a PETROBRAS, e de países como Venezuela e México, respectivos fundadores da PDVSA e da PEMEX.

Hoje, inúmeros países, dentre eles até mesmo aqueles que não possuem reservas de petróleo, possuem suas próprias empresas para cuidar deste setor-chave da economia de qualquer Estado. No mínimo, a empresa criada se propõe a cuidar do Downstream local, e foi neste processo estratégico de nacionalização das atividades em voga que surgiram as NOCs (National Oil Companies), que, ano após ano, aumentam suas participações no mercado mundial.

Outra iniciativa estratégica de alguns países afortunados pela riqueza mineral, ao exemplo de Arábia Saudita, Kwait, Emirados Árabes e Venezuela, foi a criação da OPEP, que nada mais é do que um cartel internacional organizado por grandes produtores de petróleo. Seu principal objetivo sempre foi manter as cotações do barril do petróleo elevadas, de forma a maximizar o lucro dos produtores, assim como funciona em um cartel tradicional. Se por algum motivo o preço do barril começa a cair, os integrantes da OPEP reduzem seus ritmos de produção como forma de reduzir a oferta, o que, basicamente, eleva os preços e maximiza seus lucros no longo prazo, uma vez que o petróleo é um recurso finito, esgotável.

Tal operação nos leva a dinâmica através da qual é determinada a cotação do barril de petróleo. Tratando do tema de forma objetiva, pode-se resumi-lo a uma questão de oferta e procura. Portanto, se a produção é reduzida por uma guerra ou conflito militar, como o que ocorre em 2011, na Líbia de Kadaf, o preço sobe porque a oferta diminui. Se as reservas de petróleo estão declinantes no Reino Unido, no México, ou na Noruega, o preço também deve subir pela mesma razão. Em sentido contrário, se a procura cai devido a uma recessão na economia mundial, o preço tende à queda. Se ocorrem descobertas de reservas abundantes como a do Pré-sal, é muito provável que as cotações do barril caiam da mesma forma, uma vez que a oferta tende a crescer.

Uma vez compreendido que o preço do petróleo varia em função da oferta e da procura, é muito importante ressaltar, neste ponto, que, quando falamos de petróleo, tudo é muito volátil. Diferenciando-se de outros recursos naturais com função de matéria-prima na economia mundial, o mercado de petróleo é governado pelo medo e pela especulação. Por esta razão, em 2008, quando todos aguardavam por uma recessão econômica mundial, que certamente reduziria o consumo de derivados, assistimos a uma brusca e desproporcional queda do valor do barril quando comparada à expectativa de declínio do referido consumo, guiada exclusivamente pelo temor dos mercados especulativos. Da mesma forma, embora a Líbia responda por apenas 2% da produção mundial de petróleo atualmente, um conflito político grave no país provoca uma especulação valorativa desenfreada, que dispara os preços, tudo por conta do medo de que outros países produtores sejam ‘contaminados’ por conflitos de similar teor ideológico, político ou religioso.

Um aumento substancial do preço do barril de petróleo devido aos referidos conflitos era tudo que o Mundo não precisava em 2011, quando começávamos a tirar a cabeça para fora d’água. Esta crise afeta principalmente a Zona do Euro, tão dependente da importação de petróleo e gás, mas tem potencial para atingir até gigantes como a China, já que, além da possível queda da demanda por seus produtos, terão que pagar caro pelo petróleo que importam, quando todos sabem que suas reservas estão muito aquém de suas necessidades.

Até mesmo os produtores árabes sentem-se ameaçados pela instabilidade da região por conta da ‘contaminação’ supracitada, e somente países mais afastados como Rússia e Venezuela verão suas receitas crescerem. No caso do Brasil existe um risco econômico de um lado, e uma grande oportunidade de outro, em contraste. A oportunidade consiste na queda do discurso daqueles que defendiam que se o Brasil não oferecesse muitas vantagens aos investidores estrangeiros, estes bateriam em retirada de nossas terras, e o Pré-Sal se tornaria um gigantesco mico preto.

Não se pode negar que o Pré-sal seja um petróleo de custo exploratório bastante elevados devido aos grandes desafios logísticos, ambientais, e tecnológicos da exploração e produção em grandes profundidades. Fala-se em algo acima dos US$30,00 pelo barril, enquanto no Oriente Médio é possível encontrar custos de produção de até US$2,00 por barril apenas. Todavia, em um cenário com o barril de petróleo acima dos 100 dólares, há lucro certo e gordo para todos, independentemente do custo de produção.

Há ainda uma grande vantagem oferecida pelo Pré-Sal brasileiro em relação a outras reservas de petróleo mundo a fora: o interesse dos investidores torna-se crescente conforme vislumbram a estabilidade de nosso país. No Brasil, não há previsões de riscos que possam paralisar a produção ou a comercialização de uma região inteira como haveria no caso de qualquer conflito militar que paralisasse a navegação pelo Estreito de Ormuz (no Golfo Pérsico), ou no Canal de Suez (Egito), por exemplo.

Em meio a tantos desafios e riscos, há a certeza de que a exploração destas novas reservas de petróleo turbinará a economia brasileira, em grande parte justamente por apresentar tantas dificuldades exploratórias. A expectativa neste tipo de cenário é pela geração de uma quantidade incalculável de novos postos de trabalho, o que ocorreria de forma mais branda caso o petróleo se encontrasse “à flor da pele”, como nos países árabes, que não oferecem tantos obstáculos.

Pode-se concluir, então, que assistimos a um momento histórico, embora também saibamos que ainda não há especialistas em quantidade e qualidade suficientes pra o desafio em voga. Corremos o risco de ver o petróleo contaminar o resto da economia, gerando inflação e excluindo da festa aqueles que não integram este setor tão valorizado atualmente. Não podemos nos acostumar ao dinheiro fácil, pois, como já dizia o venezuelano Pablo Peres, “o petróleo é o excremento do diabo”, e seus detentores estão sempre sujeitos ao perigo de sua ‘Maldição’.

Mauro Kahn  fundou o Clube do Petróleo (no ano de 2000). Mauro Kahn  poderá  ser encontrado também no youtube, Google e Facebook. Outros artigos do autor estão no site www.clubedopetroleo.com.br ou no Facebook do Clube do Petróleo.

Autorizamos a publicação deste artigo, desde que seu conteúdo seja totalmente preservado, inclusive estas citações finais do autor.



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